Casimiro de Abreu
Apesar de ligado à segunda
geração da poesia romântica, Casimiro de Abreu, quando surgiu no cenário
literário carioca, ajudou a desanuviar o ambiente noturno que Álvares de
Azevedo deixara ao morrer, sete anos antes. Diferentemente do que acontece na
obra de Azevedo em que amor se confunde com morte, nos poemas de Casimiro o
amor associa-se sempre à vida e à sensualidade, este é um dos pontos altos de
sua poesia.
Contudo, a sensualidade nos
poemas de Casimiro, mesmo sendo mais natural que em Álvares de Azevedo por ser
mais concreta, ela ainda não atinge maturidade. É uma sensualidade que se
conserva ligada ao medo de amar, sempre disfarçada, fruto de insinuações e do
jogo de mostrar e esconder. (Cereja e Magalhães, 2008)
Casimiro de Abreu destaca-se
também pela abordagem graciosa de certos temas, como a infância, a pátria, a
saudade, a solidão, a natureza, o amor. Temas que agradavam ao público, como
pode ser notado no poema “Meus Oito
Anos” que faz parte do Livro I da coletânea “As Primaveras”, publicada por Casimiro de Abreu em 1859, e gira em
torno da saudade da infância e da terra natal, a maior parte delas escritas
durante sua estada em Lisboa.
Neste poema, a infância é
idealizada como um tempo e espaço imaginário, sendo reconhecido pela riqueza de
detalhes visuais e movimento. Foi por essa característica que o poema mereceu,
em 1956, um dos mais belos curtas-metragens do pioneiro Humberto Mauro.
Sua estrutura consiste em
redondilhas maiores, de sete sílabas, sendo que a primeira e a última são
idênticas quanto à forma e conteúdo. As rimas são misturadas, ou seja, não
possuem esquema fixo, como propunha a norma clássica. Quanto à posição na
estrofe, são assonantes: vida/querida, fagueiras/bananeiras, marcando assim
toda a musicalidade no poema.
Impregnada de subjetivismo,
o sentimento presente é a saudade da infância, que decorrerá como tema
principal:
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
- Que os anos não trazem mais!
O poeta utiliza essa representatividade da infância como forma de escapismo, fugindo assim do momento presente:
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
- Que os anos não trazem mais!
O poeta utiliza essa representatividade da infância como forma de escapismo, fugindo assim do momento presente:
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Na segunda oitava, percebe-se que o eu – lírico expõe sua saudade
nostálgica da infância pura. Neste canto, subentende-se que o poeta adulto está
exposto a uma vida dolorosa, em consequência de ele não ter mais aquela
inocência infantil:
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
Do despontar da existência!
Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
Os travessões, quando usados, dão uma pausa na musicalidade como
que a mostrar uma verdade. No entanto, o ritmo poético é retomado nas
redondilhas seguintes:
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria
Naquele ingênuo folgar!
Que noites de melodia
Naquela doce alegria
Naquele ingênuo folgar!
Na terceira oitava aparece uma síncope, que dá um tom coloquial ao
verso (“O céu bordado d’estrelas”). Uma característica forte nestes versos é o
culto à natureza, ambiente marcante em toda a infância do poeta:
O céu bordado d’estrelas,
A terra de amores cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
A terra de amores cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Na quarta oitava, o poeta faz alusão à família, valorizando
principalmente a figura feminina (mãe e irmã), reforçando o apoio que tinha de
sua família, em detrimento da tristeza e solidão de agora:
Em vez das mágoas de agora
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
O sentimento de liberdade, felicidade e a preferência pelas
montanhas apresentam-se naquele
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus –
- Pés descalços, braços nus –
e pelo contexto a que remete, percebe-se que, quando criança, o
poeta sentia-se feliz em encarar desafios, como correr
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Essa afinidade entre o poeta
menino e a natureza mostra elementos referenciais de uma poesia que se fixou na
memória popular pela imagem do “menino descalço que, de camisa aberta, corre
atrás das ligeiras borboletas azuis”.
Para o poeta, a natureza,
enquanto emanação da grandeza divina, passa a ser venerada como expressão do
Criador. Ainda assim, esse culto pode se resumir à intimidade de uma oração:
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Quando adulto, porém, o poeta já não tem mais essa vida feliz:
Que doce a vida não era
Em vez das mágoas de agora.
Em vez das mágoas de agora.
A seleção de um vocabulário
simples e adjetivado se mistura a um cenário raro, em virtude da aproximação do
progresso. Esse cenário natural, com árvores frutíferas e pássaros cantando,
compõe o quadro das pequenas cidades do interior. O poema apresenta um toque
nostálgico, em certos versos, mas o que realmente quer enfatizar é mesmo a
“aurora da vida”, permeada de amor, sonhos, flores, bananeiras, laranjais. Ele
tem noção de que essa realidade jamais voltará, mas é cantando essa “infância
querida” que ele procura esquecer as “mágoas de agora”.
Bibliografia:
Cereja, William Roberto e Magalhães, Thereza Cochar. Português e Linguagens 5 ed. São Paulo – Saraiva S.A. Livreiros Editores, 2008.
LAURITO, Ilka Brunilde.
Literatura Comentada: Casimiro de Abreu. São Paulo, Abril Educação, 1982.
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